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Não sabe o que ler? Escolha uma das obras de Lídia Jorge!

26 de Junho de 2019 by David Pimenta

Acontece-me demasiadas vezes não saber o que começar a ler no meio de tantas escolhas que uma biblioteca ou livraria proporciona. Há demasiados livros para escolher, há demasiada confusão na minha cabeça nesse momento. Mas acabei por optar por começar a minha leitura da obra A Noite das Mulheres Cantoras de Lídia Jorge. Quer fazer uma viagem até aos anos 80 em Portugal?

Lídia Jorge abre uma porta, com A Noite das Mulheres Cantoras, aos mais novos. A paixão e perseguição pela fama, trespassada para as redes sociais e para as imagens tiradas pelos telemóveis, existiu desde sempre e o novo livro mostra que a liberdade artística dos anos 80 portugueses não está tão distante da atualidade.

Se o seu problema é gastar alguns euros passe numa biblioteca e leve o livro para casa, tal como eu fiz. Apanho o elétrico para a sala de leitura do Centro Cultural de Belém e não gasto qualquer dinheiro em livros. Mas porque é que deve seguir o meu conselho e começar a ler a obra da Lídia Jorge?

Está presente a ideia de fama em todas as páginas d”A Noite das Mulheres Cantoras?

Diria que a ideia de fama está em todas as páginas deste romance da Lídia Jorge. Lembra-se da época das Doce, tal como li na crítica do Ípsilon, em que houve uma terrível liberdade artística e tal como a escritora disse “preparou para a época em que estamos hoje”? É a forte inspiração por detrás de A Noite das Mulheres Cantoras.

Não foi ao acaso que esta obra se realçou em todas as outras da biblioteca do CCB. O universo da música e do feminino sempre me atraiu, apesar de já ter tido uma desilusão com o Vento Assobiando nas Gruas. Para não correr o risco de gastar dinheiro à toa com mais um livro da Lídia Jorge decidi requisitá-lo. Pode ser um crime dizer que se gasta dinheiro à toa com um livro desta senhora mas não é por ter estatuto que a deixo de tratar como uma escritora como todas as outras.

A história é contada segundo o ponto de vista da Solange de Matos, ao ser convidada pela chamada maestrina Gisela Batista para fazer parte da banda que pretende formar. Toda a experiência da protagonista está envolta de um sentimento profundo, já notado na personagem principal do livro anterior que tentei ler da Lídia Jorge. Numa sociedade tão virada para os 15 minutos de fama nas redes sociais, na maioria das vezes por motivos insólitos, a escritora oferece aos leitores um retrato dos anos 80 completamente atual não fossem algumas passagens tão familiares às minhas vivências.

Solange começa a lutar pelo sonho de se tornar conhecida com o seu grupo sob a condição de letrista, a que lhe enche o coração, e também de cantora ao mesmo tempo que se envolve com João de Lucena, o coreógrafo do grupo. Há subtileza na forma como é contada a história do livro, em vários aspetos: quer seja na dúvida da sexualidade do coreógrafo a determinada altura quer seja no facto de Gisela se envolver com o padrasto e orientar as raparigas para não darem asas ao romance e se dedicarem ao projeto musical.

E quais os pontos fracos nesta obra da Lídia Jorge?

A Noite das Mulheres Cantoras não é um livro fácil, com as palavras simplesmente colocadas na folha branca para serem entendidas à primeira. Desenganem-se os leitores, habituados às obras fáceis e expostas na primeira banca de uma livraria. Exige-se concentração, longe do barulho do banco de um autocarro, e dedicação para se entender a poesia de Lídia Jorge.

É a quase poesia presente neste livro sobre a fama que apaixona qualquer leitor. Apaixonou-me a mim e aposto que vai apaixonar qualquer um. Compre-o ou se não quiser gastar dinheiro vá à biblioteca mais próxima da sua casa!

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Gabriel García Márquez – Cólera e o Amor

25 de Junho de 2019 by olinda de freitas

Gabriel García Márquez conta que Florentino Ariza acrescenta, e alimenta, um amor com mais de cinquenta anos por Fermina – a quem jurou amor eterno e deu uma espera de vida ou, pelo menos, uma vida de espera até à morte de seu marido Juvenal Urbino que representa o casamento conveniente tão actual durante toda a história do Homem.

Em tempos de cólera, o amor

A história, de amor com envelhecimento e morte dentro, é narrada em um realismo fantástico – característica adorável de Gabriel García Márquez. Será isto, isto que sinto, amor? E se é, como não ter a certeza de que não morre? E sendo, por que não há-de consumar-se na experiência que é viver? São estas, muito mais do que meras questões, as premissas desta história antiga e quase moderna: antiga porque se passa em um outro tempo e quase moderna porque, atemporal como se queria (ou como eu queria), não constitui regra essa coisa de o amor ter de ser cumprido, não há tempo, no nosso, que o valha como aquilo que vale a pena.

Rendilhados de histórias contam uma história pela mão de Gabriel García Márquez que, no entanto, não é uma história qualquer: é a história de um sentimento que se esgota – mesmo sem se esgotar – na alma. Porque o corpo serviu para o prazer; o corpo serviu para a carne viver, esfregando-se, na carne. Será amor aquele que vive pela metade?

Intensidade, paixão, loucura, tristeza, revolta. Está tudo lá, naquela trama nada tramada de se ler. Está o feminino repelente caricaturado – assim como está o machismo empoleirado. Está a ascensão social e o dia trivial; está a mancha da prostituição caseira, aquela que dá o corpo pela alma que se quer inteira. Está lá tudo. E tão bem contado, como só o Gabriel García Márquez sabe contar.

Encantadora maturidade

“Era ainda jovem demais para saber que a memória do coração elimina as más lembranças e enaltece as boas e que graças a esse artifício conseguimos suportar o passado.” Não é a inocência a mais madura de todas as fragilidades perante o que é sentir? Mas sentir tão completamente que se chega a ter a certeza de que quem amamos afinal não é, não pode ser, bicho mas sim gente?

Cinquenta e um anos, nove meses e quatro dias

e um único caminho, tantos atalhos, tantos trabalhos. Nunca se revoltou, ou pelo menos nunca a revolta se cansou de amansar, com aquela mulher detestável. Porque, para mim, Fermina simboliza todos os que renunciam ao amor. E quem quer que seja que renuncie ao amor, ao amor limpo e feliz como o de Florentino, poderá ser adorável?

História alterada

No meu fim da história, Florentino viria a descobrir que se encantara por uma farsa desprezível que morreria a suplicar o seu perdão. Florentino iria beijá-la na testa e entregava-lhe a morte que já fora dele, não um dia, mais de meio século.

E o amor embrulhava-se de presente, agora sim, para a ele se abrir. Mas esta é a história do Gabriel García Márquez, não minha, que quis perpetuar o chavão de que quem ama tudo aguenta, tudo teima – até o coração daquele que mostra que não queima. Porque esta é uma história que faz vencer quem não merece – é uma derrota ao coração que, não se deixando padecer, padece.

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Mosteiro da Serra do Pilar – onde o olhar e o céu se encontram

28 de Maio de 2019 by olinda de freitas

O adro do Mosteiro da Serra do Pilar

O adro, lindíssimo, do Mosteiro da Serra do Pilar, verdadeiro ex-libris em Vila Nova de Gaia, é considerado uma porta de entrada para o património da região Norte – local onde se pode observar a exuberante vista sobre o rio Douro e sobre as cidades do Porto e de Gaia, numa das partes mais belas e procuradas pelos turistas.

Abrir este monumento a público, que é Património da Humanidade e que nunca esteve aberto, foi um objectivo já finalmente alcançado.

A igreja

A Igreja realça-se pela planta circular, coberta por uma imponente abóbada hemisférica, rodeada por varandim e coroada por um lanternim – está classificada como Monumento Nacional. E no interior, saltam à vista os trabalhos em talha dourada e branca. A igreja conserva um claustro com beleza, igualmente classificado como Monumento Nacional, com abóbada circular com nervura central apoiada em trinta e seis colunas jónicas.

Merece ainda destaque o seu belo rendilhado formado por volutas, cartelas e pináculos. Este mosteiro maneirista, no alto de onde é possível agarrar tanto o céu como as fímbrias do rio de uma só vez, é um exemplar único em Portugal.

O Mosteiro na História

A localização geográfica do Mosteiro da Serra do Pilar assumiu-se crucial aquando das invasões pelas tropas napoleónicas e, em 1832 e 1833, enquanto base militar durante as lutas liberais. Terá sido elevado à categoria de fortaleza e convertido, desde então, em quartel de artilharia. Do terraço, lá no cimo do vento, é possível desfrutar de fantásticas vistas sobre o Rio Douro, sobre a zona mais antiga da cidade e sobre os telhados das Caves do Vinho do Porto.

Um adro, que é uma entrada, mais turismo

O Mosteiro da Serra do Pilar passou a ter um portal que permitiu melhorar a oferta turística nortenha e oferecer aos visitantes uma informação qualificada e integrada sobre os quatro sítios da região que estão classificados pela UNESCO: os centros históricos do Porto e de Guimarães, o Douro Vinhateiro e o Parque Arqueológico do Côa.

Para além disso, existe o recurso a instrumentos multimédia, a elementos relativos a todos os elementos patrimoniais classificados na região, nomeadamente os monumentos mais emblemáticos (castelos, igrejas e museus) e produtos culturais como a Rota do Românico ou a Rota dos Mosteiros em Espaço Rural. Os turistas podem ainda visualizar, em três línguas estrangeiras (inglês, francês e espanhol), um filme, especialmente produzido para o efeito, ilustrativo da riqueza patrimonial da região.

A entrada em funcionamento do tal portal passou a dar utilidade a um conjunto de espaços monumentais que se encontravam devolutos. A mostra fica instalada em duas salas, incluindo o antigo refeitório do mosteiro, permitindo ainda o acesso à capela e à realização de visitas guiadas à igreja, sendo possível subir ao zimbório do Mosteiro da Serra do Pilar – de onde é possível ter acesso a uma vista única e memorável sobre o Porto.

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Definindo o conceito Multifacetado. Ser ou não ser?

12 de Maio de 2019 by Teresa Radamanto

“Multifacetado”.

Atualmente este é o adjetivo mais utilizado quando queremos descrever as competências , qualidades ou características quando descrevemos o nosso perfil a um empregador, ou a qualquer outra entidade promissora no que diz respeito a empregabilidade . “Multi”, prefixo que designa múltiplas ou várias; “facetado” , claro está, “facetas”, várias facetas que possuímos, vários pequenos “eus” que se adaptam às necessidades emergentes e nos transformam em verdadeiros “experts” em várias matérias! “o saber não ocupa lugar” diz a sabedoria ancestral; mas será que de fato, todos teremos de o ser? Inevitavelmente. É um mal necessário. O segredo está na gerência que fazemos das nossas diferentes “facetas” e na forma como aplicamos as mesmas. “Juntar o útil ao agradável” é o que se quer. Reunir as aptidões naturais com as competências de formação é o que se pretende. É neste sentido que o adjetivo me define . O meu perfil profissional funde-se com o pessoal. O que aprendi funde-se com o que é inato e faz de mim uma profissional multifacetada. O segredo reside nesta atitude. Infelizmente  nos tempos que correm ,poucos conseguem conseguir cumprir os objetivos delineados no inicio da viagem pelo mercado de trabalho:- ” não há emprego na minha área”- tem sido a expressão mais recorrente nos últimos 3 anos… mas será que é totalmente uma situação infeliz? Será que poderá existir algo de positivo nesta realidade tão tenebrosa? Certamente. O conceito  “Multifacetado”  adquire todo o seu “esplendor” nestes contextos, afinal , “a necessidade aguça o engenho” , e são muitos os casos de sucesso neste momento, em Portugal, dos que “cruzaram outros mares” e obtiveram sucesso. Porque pensaram –
“Dentro das minhas áreas de formação e em quaisquer outras , serei eficiente.”É assim que nos devemos Auto incentivar, auto motivar. A motivação é a palavra chave. Encontrar o nosso “motor” de arranque. Encontrar na realidade dos nossos dias e na que reside à volta dos nossos “eus” uma forma de sermos irrealistas , para que ao sairmos da “zona de conforto”, possamos pensar “out of the box” , e assim fazermos “acontecer” . Assim poderemos executar o sonho , o irreal , e concretizar . Concretizar formas “irreais” de sermos empreendedores ,criativos , arrojados ;de sermos , enfim, multifacetados. Encontrar formas de poder estar ativo em várias frentes ao estarmos integrados no desenvolvimento social da nossa realidade… e  acreditar que ” vai funcionar”! Acredito que não podemos ser estanques, a evolução comanda a vida, e como tal, ao sermos “multifacetados” acompanhamos o progresso rumo ao futuro. Sermos a mudança que necessitamos é o meu mantra. Espicaçar o pensamento e criar opinião deve ser a nossa missão, independentemente da área em que nos insiramos.

Multifacetado?Definitivamente ser!

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ESC:ALA, a revista-maravilha electrónica do outro mundo

3 de Maio de 2019 by olinda de freitas

O que é a ESC:ALA?ESC:ALA, uma revista artística

A ESC:ALA, revista electrónica multidisciplinar das artes – e indisciplinar também por conta de a irreverência ser uma convidada que é e faz feliz – propõe-se sobretudo como um espaço de experiências sábias, uma espécie de laboratório experimental onde diferentes olhares e expressões artísticas se juntam para tomarem chá na mesma mesa e comunicarem entre si enquanto trocam, não de chávenas, de sabores.

Um espaço maravilhoso,

como a ESC:ALA só podia reunir, na mesma mesa, literatura, música, cinema, vídeo, ilustração, animação, fotografia, arquitectura, teatro, performance, design, pintura, street art e demais artes plásticas e performativas. E isto sempre na conversa, que não sendo fiada, afia-nos a reflexão como a prática mais amorosa da inteligência.

A ESC:ALA é, pois,

um espaço multimediático de interacção entre a investigação e a arte onde também artistas emergentes têm voz e lugar à mesa. Igualmente as reflexões mais periféricas ou marginais são aqui, quero dizer lá, divulgadas. Isto porque foram desenvolvidas no âmbito da rede de investigação internacional LyraCompoetics, o que faz dela, segundo as palavras de um dos autores e criadores da ESC:ALA, a ovelha tresmalhada da revista eLyra – revista que exalta o conhecimento da poesia moderna e contemporânea, promovendo a sua leitura crítica no contexto de problemáticas de âmbito transnacional. Mas isso fica para depois.

Quem é que, afinal, a fez?

Fez e fará, sim, já está prometido três a quatro edições por ano e o prometido é devido. A ESC:ALA é editada por três colaboradores do Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa, instituição que promove e divulga o desenvolvimento da área da Comparatística na Faculdade de Letras do Porto. O HTML ficou, e fica, a cargo do nosso querido João Pedro da Costa que, na revista exerce a polivalência do prazer, brilha igualmente a dar-nos música e saber.

A ESC:ALA número um

Ala a ala, tudo ali prontinho a ser escalado e sorvido e reflectido como se quer, a revista-maravilha conta com um conjunto imenso de autores cujas colaborações vão desde o do ensaio (Filipa Rosário, Gustavo Vicente, João Pedro Cachopo, João Pedro da Costa e Rita Novas Miranda) ao vídeo (Gonçalo Robalo, Joana Rodrigues e a dupla João Manso e Miguel Manso), passando pela fotografia (Alípio Padilha e Filipe Pinto), o argumento cinematográfico (Mathilde Ferreira Neves), a poesia (Daniel Jonas e Lúcia Evangelista) e uma instalação que combina design gráfico, ilustração e street art (Bruno Roda).

Esta primeira edição da revista inclui igualmente um inquérito sobre Cinema e Literatura ao qual responderam os cineastas Edgar Pera, Gonçalo Tocha, João Canijo, João Nicolau, Marcelo Felix, Regina Guimarães e Saguenail, Renata Sancho e Sandro Aguilar. Uma maravilha de se ler. Está à espera do quê?

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Milan Kundera e a leveza sustentável com Nietzsche

11 de Abril de 2019 by olinda de freitas

Leveza sustentável

Milan Kundera dá-nos um dilema entre a liberdade e o comprometimento, dilema disfarçado na dicotomia peso/leveza com uma reflexão sobre o eterno retorno de Nietzsche, em um mundo em que não há o eterno retorno e em que a escolha é cinicamente permitida: não é possível nem a previsão da escolha certa nem a condenação pela escolha errada.

Sem um imperativo supra-humano de orientação comportamental que julgue a escolha, a existência torna-se perplexamente leve. A leveza é, portanto, a inevitável condição humana diante da constatação de uma existência irretornável. (e incontornável)

Milan Kundera e a melancolia do século vinte

Milan KunderaEste diagnóstico em forma de dilema, é o eco que Milan Kundera faz ao pensamento que marcou a Europa aguerrida e melancólica do século XX, tal como Nietzsche, Heidegger e Sartre – os temas sobre os quais estes autores se debruçaram apontam para um mesmo cenário: a condição  humana em determinismo moral e um consequente conforto ético.

O Homem, dono de nada

A era dos existencialistas é aquela das consequências e das rejeições em relação aos anseios racionalistas de fundamentação do humano em coisas como a certeza e a razão. Milan Kundera desintegra estes conceitos cartesianos focados no homem como dono da natureza: depois de conseguir abraçar e dominar a ciência e a técnica o coitado percebe, de repente, que nada possui e que não é senhor nem da natureza nem da História – e, mais ainda, nem de si mesmo porque, verdadíssima, o Homem é conduzido por forças irracionais da sua alma.

Porque o Homem tem alma. Deus foi embora e o planeta, o Homem, caminha no vazio sem nenhum senhor: eis, mais uma vez, a insustentável leveza do ser. (Milan Kundera, 2009, p. 45)

Para Milan Kundera, a leveza insustentável  é intuitivamente caudatária do afastamento, ou morte, de Deus – da dissolução do imperativo ético supra-humano. Sabemos todos que esta é uma provocação de Nietzsche à hipocrisia da moralidade cristã: dizer que Deus se afastou, é dizer que não há uma receita moral, na qual possamos justificar as nossas crenças e orientar a nossa conduta, nem tampouco fundamentar as nossas instituições e práticas – uma vez que a tal receita implica a negação da corporeidade e da individuação da pessoa humana.

É o perverso niilismo.

A verdade de Nietzsche em Milan Kundera

Ao tematizar a morte de Deus, Nietzsche quer apontar também para a morte do que chama de “impulso à verdade”. Ora pensar na verdade como o que garante a legitimidade do conhecimento, no conhecimento como o acento do essencialmente humano e na cultura como a reunião das asserções de conhecimento, é um modo iluminista-racionalista (de base platónica) de atribuir um sentido à vida humana.

Assim, a verdade é algo dado mas que se mantém camuflado até que a aplicação correcta do espírito possa descobri-la. Nisso consiste a missão do ser humano na terra. Todavia Nietzsche, veementemente, nega esta narrativa e a sua ideia de verdade é de algo inventado e não descoberto. Verdade é “um batalhão móvel de metáforas, metonímias e antropomorfismos…” (Nietzsche, 1991, p. 34).

Assim, a verdade de Milan Kundera não precisa de convergir com a lei do eterno retorno que paira sobre a existência da sua grande personagem.

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